quarta-feira, 16 de julho de 2008

Sem dinheiro...

Para quem não teve oportunidade de o fazer, vale a pena ler o "editorial" do SOL do passado fim-de-semana. Nele, José António Saraiva (JAS) diz que Manuela Ferreira Leite não é a melhor escolha para o país. "O pessimismo é um traço constante da idiossincrasia nacional", e exemplifica com o discurso de alguns intelectuais como Vasco Pulido Valente ou Medina Carreira.
Mais adiante avança que "pelo contrário, o optimismo é um tónico. Não garante o sucesso mas ajuda."
Até aqui tudo bem. É verdade, faz parte da postura perante a vida, do modo como se enfrentam as circunstâncias. A ciência prova que os optimistas vivem melhor.

JAS finaliza o editorial assim:

"Vem isto a propósito da nova líder do PSD, Manuela Ferreira Leite. É uma mulher séria, responsável, determinada - mas tem um enorme defeito para quem tem de liderar pessoas - é uma pessimista. Vê tudo a negro. Tem um ar zangado, amargurado, como aquelas professoras primárias de quem em miúdos tínhamos medo.

Ferreira Leite justifica o seu mau humor com a situação de «emergência social» que o país vive. Ora, a verdade é que Portugal não vive nenhuma situação de excepção. A situação que vivemos é de absoluta normalidade - e temos que nos habituar a esta ideia. As dificuldades do país vêm de trás e vão permanecer assim por muito tempo.

Os portugueses passam a vida à espera que aconteça qualquer coisa - um milagre, uma revolução, a chegada de um salvador - mas não vai acontecer milagre nenhum. Não vale a pena, portanto, chorar, nem fazer má cara, nem falar em desgraças. Temos, simplesmente, de nos habituar a viver com o que temos - e procurarmos ser felizes agora e não amanhã ou depois.

Manuela Ferreira Leite precisa de aprender a sorrir. Deve pensar que a desgraça atrai a desgraça. Deve perceber que a descrença não resolve coisa nenhuma e nos torna amargos, insatisfeitos e, no limite, abúlicos - porque quem não acredita em nada não tem vontade de se mexer.

Nós ja temos tendência para a melancolia. Se à frente do país estiver uma governante macambúzia e triste, Portugal tornar-se-á facilmente um imenso velório."


Seja.
Mas Portugal não pode ser a hiena que ri daquela célebre anedota...
A questão é que o país não tem dinheiro. Viveu de sorriso de orelha a orelha nos tempos áureos de Guterres - quando penso que votei nele... - e depois disso nunca mais saiu do pântano.
É como uma família: se não tiver dinheiro, e além disso estiver endividada até à ponta dos cabelos, não serão os sorrisos que lhe vão resolver o problema. Tem de cortar despesa.
É neste ponto que o PSD versão Manuela Ferreira Leite tem batido. Admito que com alguma demagogia, mas de forma certeira. Todos os cidadãos sabem fazer as contas básicas da vida: sem dinheiro não há vícios.
O PSD tem-se agarrado à questão das obras públicas. Quanto a mim, tem de clarificar e dizer concretamente quais as obras que podem ser deixadas para um momento mais apropriado.
Não pode é dizer o que disse Paulo Rangel (líder parlamentar do partido) no recente debate sobre o Estado da Nação: "O PSD não está contra obras públicas em geral nem contra nenhuma em concreto." Isto é o quê?!
Tal como não se pode agarrar a afirmações como esta: «O papel do PSD na oposição não é apresentar alternativas às propostas do Governo, mas sim fiscalizá-lo»
(Manuela Ferreira Leite, hoje). Ou seja, o PSD não é governo-sombra. Pois não será, mas tem de dizer quais as alternativas que quer para o país.

Em termos de comparação, temos a Câmara de Lisboa sob a mão de António Costa.
Hoje foi notícia que "a CML já pagou 180 dos 360 milhões de euros em dívida". Apesar disto, muitos acusam-no de não ter feito nada. Digamos que... ter feito isto só num ano é um milagre! Até tendo em conta as chamadas condições de governabilidade deste executivo camarário.
Só com as contas em ordem e a casa arrumada é possível ideias e projectar a cidade par ao futuro.
Hoje no Meia Hora, Manuel Falcão (do A Esquina do Rio) desanca a CML de António Costa por ter sido um ano perdido, não ter feito nada, ter cortado financiamentos a "organismos culturais independentes" (se são independentes, para quê precisam do dinheiro da CML?)...
António Costa tem apresentado trabalho, projectos, a Lisboa que aí vem para os próximos anos, a vontade de devolver o rio à cidade está em marcha (finalmente!)... Mas uma coisa é certa: sem ovos não há omeletes.
E é neste ponto que o PSD-Ferreira Leite tem insistido.
(A propósito, uma pergunta: no país que quer auto-estradas para todas as casas, TGV e um novo aeroporto em Alcochete, já alguém reparou que as transportadoras aéreas estão a reduzir o número de voos? Mesmo assim, justificar-se-á um novo aeroporto? Num momento em que os aviões têm maior autonomia de voo, e por isso menos necessidade de escalas técnicas em aeroportos secundários? Convinha pensar nisto, e não dizer disparates como o da energia nuclear, patrocinado pelo governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio...)
António Costa já anunciou que é candidato a mais um mandato. Se tiver oportunidade, é possível que Lisboa, capital de um país europeu, ganhe alguma coisa com isso.

1 comentário:

Cris disse...

Olá Amiguinho...
Também vi essa notícia no Meia Hora (sobre o ano perdido em Lisboa) e pensei: "mas como é que querem que uma Câmara endividada invista em novos projectos se não tem dinheiro nem para os antigos?". Primeiro paga-se o que se deve... e depois então pensa-se no resto. É incrível a capacidade que as pessoas têm de dar tiros nos seus próprios pés, falando antes de pensar no que dizem!
Outra pérola é a da MFL... Com que então a oposição não tem de apresentar alternativas??? Pensava que o PSD queria chegar ao poder. Como é que quer ser eleito se os portugueses nem sequer souberem minimamente o que para lá vão fazer? Se forem muito bons a fiscalizar nem é preciso haver eleições. Fica sempre o PS no governo e vamos ter a certeza que fará um bom trabalho porque o PSD, como fiscalizador, não permitirá falhas. A não ser, claro.. que a MFL tenha medo que o PS ponha em prática as suas ideias e que estas sejam de tal maneira tão boas que ainda façam com que o PS fique mais uns anitos no poder.
Sinceramente... cada vez estou mais farta desta miséria de políticos que temos!